| Vícios
a sanar
Paulo Saab - Diário
do Comércio - 06/02/2007
O presidente da Câmara
dos Deputados poderia ser o Joaquim, o Antonio, o João. O presidente do Senado
Federal poderia ser o Pedro, o Paulo ou o Nelson. No que efetivamente os chefes
desses poderes precisam mexer, nem se cogita. Não faz parte da agenda direcionar
a atenção do Congresso Nacional para os interesse do país.
Em nome dos
interesses do país, enquanto se discursa nessa direção, desde a campanha eleitoral
interna até a pauta de trabalho dos eleitos, o que faz o pano de fundo da ação
de nossos parlamentares é o restrito interesse da categoria a que pertencem. Há
enormes vícios a sanar na vida política do país. E quem deve saná-los (em tese
porque na prática não o fazem) são justamente os legisladores, ou seja, os senadores
e deputados federais.
Eles fazem de tudo e entenda o leitor o sentido
de fazer de tudo como fazer de tudo mesmo, menos mexer nos privilégios e na legislação,
feita por eles, que os protege. Vou citar três pequenos, mas fundamentais exemplos
de porque a vida política do Brasil é viciada. Um: A legislação permite a eleição
e posse de candidatos com dívidas, pendências e processos na justiça. Um absurdo.
Ao se eleger, imediatamente após, o indiciado ou réu, ganha a proteção da imunidade
parlamentar, o que atrai para a vida pública toda sorte de carreirista cujo primeiro
degrau, normalmente, é o 157.
Por conseguinte, não interessa a esse amplo
contingente ter um Judiciário eficiente. Fosse o processo inverso e os cidadãos
de bem iriam pressionar a justiça a andar mais rápido para provar sua inocência.E
o Parlamento não estaria cheio de números tipificados no Código Penal Brasileiro.E
no Civil.E no Trabalhista. E onde houver tipificação. Dois: os partidos se encantam
no recrutamento de pré-candidatos com "celebridades" da televisão, do rádio, da
moda, que significam facilidade de voto popular.
Atrás da votação vem
sempre alguém despreparado para a vida pública, deslumbrado com o charme do poder
e presa fácil da alcatéia brasiliana. Um desserviço à causa pública, ainda que
no folclore, na risada fácil e nas páginas das revistas de futilidades, todos
fiquem felizes.
Em vez de formar e preparar candidatos baseados num programa
de ação deixam ser eleitas figuras notórias não necessariamente úteis, quando
não são um desserviço. Três: A inexistência do voto distrital.Os votos são de
tal maneira dispersos que o eleito não tem compromisso com nada e com ninguém.
Releiam o que escrevi aqui semana passada sob o título "Trânsfugas". A que parlamentar
interessa que seja eleito por um distrito eleitoral onde vai ter que cruzar na
rua com quem o elegeu e prestar esclarecimento e dar satisfação de suas (nefandas?)
ações.
Tanto o novo presidente da Câmara Federal como seu par do Senado,
deveriam atentar para esses pequenos detalhes. Não o farão e o processo político
seguirá ineficaz para o país, e falho. Em tempo: Que legislação é essa (feita
por "bandidos" pra proteger bandidos?) que vai por na rua em pouco mais de oito
anos um criminoso que matou covardemente, literalmente no escuro do cinema, três
pessoas e feriu outras quatro? De condenado a mais de cem anos anteriormente,
para a rua, em menos de uma década.
A Justiça diz que cumpre a Lei. Quem
faz a lei são os deputados federais e os senadores. Mas eles estão ocupados brigando
por cargos, salários, mensalões, comissões em ambulâncias e cargos no Executivo.Para
ficar no mais suave. Pobre Brasil.
Na inauguração de uma nova Legislatura,
iniciada dia primeiro, vamos acreditar que vai melhorar?
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