| Vivendo em São Paulo Paulo Saab - Diário
do Comércio - 13/03/2007
Na sexta-feira passada no editorial "Viver
em São Paulo" fiz alguns comentários a respeito da qualidade
de vida e do gigantismo da capital paulista, a propósito da visita do presidente
do Estados Unidos, George Bush e das paralisações no trânsito
já caótico da cidade que a visita provocava. Mencionei a necessidade
de a cidade ser amada por seus moradores. Até o cacófato "por
cada" saiu. Um parêntese: as críticas
ao esquema de segurança exagerado para Bush cabem quando se referem comparativamente
à segurança dos paulistanos no cotidiano. Uma senhora, em sua singeleza,
disse na televisão: "movimento assim só vi quando veio o Papa".
É óbvio que a presença de visitantes importantes traz consigo
transtornos e sacrifícios. Não concordo com o exagero, mas imaginar
que um presidente norte-americano, um Papa, venham ao Brasil, a São Paulo
e não haja rigor na segurança pessoal, é ingenuidade ou ignorância.
Bush não é propriamente um
bem amado mundo afora. Aqui, nas bandas tupiniquins, as palavras de ordem são
seguidas pelas nossas viúvas do socialismo que bradam contra o império
nos quatro cantos do mundo. Ver manifestação na Paulista gritando
palavras de ordem contra Bush é de um amadorismo incrível. Estudantes
engajados, militantes engajados, meia dúzia (ou cinco mil) arregimentados
para isso por profissionais, incomodam mais o paulistano por interromper o trânsito
e impedir sua passagem do que pelo conteúdo da causa que não sensibiliza
a massa. Aproveitam-se da passeata pelo Dia Internacional da Mulher e, aí
sim, numa jogada inteligente, fizeram parecer que tudo era protesto contra Bush.
O presidente do Tio Sam não é,
repito, uma figura carismática, nem desperta simpatias por seu inexistente
humanismo. Deve merecer a rejeição que provoca. No Brasil, os engajados
batem bumbo às ordens recebidas de fora. Fechando o parêntese.
Volto a São Paulo. Na verdade, entendo que o assunto, nossa cidade, deva
merecer muitas páginas de considerações e estudos de especialistas
em urbanismo, psicologia, antropologia, selvageria e tudo mais que um gigante
assim comporta. Para nós que percorremos
a cada dia suas ruas e avenidas quase sempre necessitando de maiores cuidados,
todavia, o que interessa, de fato, é o impacto que causa na vida de cada
um. E vou procurar insistir numa tese que defendo segundo a qual o desamor dos
habitantes por seu canto, sua rua, seu bairro, piora a qualidade de vida na e
da cidade. Há urbes como, por exemplo,
só para citar uma, Washington (poderia ser outra qualquer fora dos Estados
Unidos. Vamos acalmar as patrulhas) onde os benefícios que o morador aplica
em sua fachada, sua calçada, são descontados do imposto equivalente
ao IPTU. A criatividade ajuda muito a humanizar os grandes centros. Em
São Paulo, todavia, existe um acentuado descomprometimento de quem tira
seu sustento da cidade com a própria. Gente vinda de todos os cantos
do mundo e do Brasil, aqui acampa, faz sua vida, mas a exemplo do que foi a colonização
brasileira, não finca raízes definitivas, esperando sempre voltar
para seu canto natal para exibir e usufruir o que aqui conquistou. Exagero? Pode
haver. Mas o exemplo é claro, típico e gerador de uma cultura de
"não tenho nada a ver com isso. Estou só aqui para ganhar minha
vida e exijo meus" direitos "(pode aplicar aqui a pronúncia que
quiser). O populismo barato dos governantes institucionaliza
o erro em busca de voto. Estou levantando essa bandeira da necessidade de
cada um de nós, não importa o bairro, classe social ou econômica,
que vive em São Paulo, começar a amar um pouco mais sua cidade.Dar
um pouco mais de si para melhorá-la, ainda que em seu pedacinho, como forma
de iniciarmos uma jornada de resgate desse descomprometimento existente e que,
na somatória, faz do fato de estarmos vivendo em São Paulo, um inferno
diário. Ou o purgatório,como mencionei na sexta-feira.
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