Paulo Saab, graduado em Direito pelo Largo de São Francisco(USP), jornalista especializado em rádio e TV, colunista e editorialista do Diário do Comércio e professor universitário. Atua profissionalmente como executivo e participa de entidades como voluntário na causa da educação e da cidadania.
Membro de conselhos, associações e organizações empresariais, educativas, nacionais e internacionais. Palestrante, escritor.


Sem compromisso



Paulo Saab - Diário do Comércio - 16/01/2007


Começar o ano assistindo acidentes decorrentes da estação das chuvas é rotina, embora não se saiba porque faltam providências maiores em relação ao que se imagina que sempre vai acontecer (e acontece) como inundações, enchentes, solapamentos de terra e quebra de barreiras.

As conseqüências são dramáticas, mas esquecidas até a estação seguinte. Faço essa digressão para lembrar da tese de um veterano observador da cena nacional, para quem, no Brasil todo, mas em São Paulo, especialmente, o tamanho das necessidades e da demanda social, somado ao crescimento desordenado e elevado da população sem maiores recursos, fizeram a capacidade de busca de soluções para os problemas "passar do ponto". Em outras palavras, não tem jeito, não tem volta. É como a avião que passou do ponto em que o combustível daria para a volta. Não tem mais retorno.

Os problemas se avolumaram em tamanha grandeza que o poder público e a sociedade em geral, não têm mais escala e capacidade de resolução. Por mais que se tente fazer a demanda é sempre crescente e maior. Ele quer dizer o seguinte: nunca mais teremos qualidade de vida em São Paulo e mesmo no Brasil todo porque à distância entre o que precisaria e ainda é preciso fazer aumentou tanto em relação ao que se faz e ao aumento das necessidades, que o circulo fica vicioso. É uma visão realista, se não for pessimista, da qual, ainda, discordo na conclusão. Em minha opinião o diagnóstico está correto, mas penso que há jeito ainda.

Além de tudo isso que falta e talvez até o buraco tenha ficado tão grande justamente por isso, o mal é a ausência de comprometimento dos nossos governantes e políticos com as reais necessidades do país. Para não precisar voltar a temas do ano passado, a disputa pela presidência da Câmara dos Deputados, de agora, revela quão distantes estão os políticos da realidade nacional, porquanto suas prioridades, sempre, são os assuntos intestinos. Estivessem os ocupantes de cargos decisórios (nos três poderes) minimamente interessados em assuntos que se estendem alguns metros além de seus umbigos e não teríamos chegado ao ponto de incapacidade de resolução dos graves problemas em todos os setores do país, como hoje vivenciamos.

É de grandeza infinita o descaso real do pensamento e das ações de suas excelências que, mesmo sempre falando em nome dos interesses sociais, só cuidam do que é afeto ao seu redor. Falta grandeza e comprometimento. Faltam exemplos de dedicação à causa pública e, acima de tudo, nunca pensei que iria escrever isso, falta reação da população mansa que a tudo assiste e paga conformada com sua sina enquanto os aproveitadores de todas as matizes ideológicas, sugam até suas almas.

Aprendi nos bancos da sempre e nova Academia do Largo de São Francisco, onde me formei, as bases do direito, os fundamentos do humanismo e desde então, já lá se vão três décadas, tento exercitá-los a cada dia. Vacilo, às vezes, na convicção de sua verdade, ao ver a bandalheira instalada e a ingênua, ignorante e boa população pobre, sendo enganada. E a classe média indo para o buraco.

Acredito, ainda, que se houver cobrança para haver comprometimento, a vergonha, a honradez, pode voltar a ter algum espaço na vida do país. O escrúpulo pode de voltar. Para haver cobrança é preciso haver informação, conhecimento, organização.

Espero que a tese do guru acima mencionado não se transforme em estigma derradeiro e que ainda haja tempo ou combustível, para um retorno aos tempos em que os homens (e mulheres) da vida pública e seus arredores privados, ainda tinham constrangimento em abandonar tão abertamente quem os sustenta (eleitores e contribuintes) para cuidar somente de seus interesses pessoais.




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