Paulo Saab, graduado em Direito pelo Largo de São Francisco(USP), jornalista especializado em rádio e TV, colunista e editorialista do Diário do Comércio e professor universitário. Atua profissionalmente como executivo e participa de entidades como voluntário na causa da educação e da cidadania.
Membro de conselhos, associações e organizações empresariais, educativas, nacionais e internacionais. Palestrante, escritor.


Os trânsfugas



Paulo Saab - Diário do Comércio - 30/01/2007

Os trânsfugas "Trânsfuga" s.m.e.f. 1-pessoa que em tempo de guerra abandona a sua bandeira passando às fileiras inimigas. 2- Pessoa que abandona o seu partido político.Que abandona a religião. Apóstata. Fugitivo."".


O Brasil tem se consagrado, no que diz respeito ao item 2 da definição acima encontrável no Dicionário Michaelis, no paraíso dos trânsfugas. As notícias da semana dão conta de que pelo menos vinte parlamentares federais eleitos para a gestão que se inicia agora em fevereiro devem trocar de partido antes mesmo de tomar posse. Na história política pós-diretas-já não deveria caber a possibilidade de um parlamentar eleito por um partido político, por sua vontade própria mudar de legenda sem penalidade.

O sistema representativo é partidário e os eleitos são, em tese, identificados pelo eleitor com o programa desse partido. A possibilidade de troca, de fuga, de traição ao voto do eleitor, não se ajusta à representatividade contida no voto. Esse voto não é do trânsfuga. É do eleitor.Ao mudar de sigla para atender a interesses pessoas, o trânsfuga subverte a liberdade democrática, ofende quem o elegeu e revela de público que está atrás de atender aos seus interesses primários e não se preocupa com quem nele votou para defender interesses coletivos.

Não se pode acusar apenas os eleitos agora que estão traindo seus eleitores. No pleito anterior nessa mesma época, fim de janeiro, inicio de fevereiro, 37 deputados eleitos, em 513, já haviam mudado de trincheira. O que deixa patente a falibilidade do sistema e a necessidade de uma reforma política que imponha a fidelidade partidária.

O eleito pode até ter o direito de pleitear mudança.Mas ela deveria ser precedida de processo dentro do partido onde as causas, que deveriam atender a critérios pré-determinados, seriam analisadas. O mandato ,como é hoje, vira objeto de permutas, trocas, negociações, que passam ao largo da motivação partidária da candidatura. Interessante notar que o fluxo de fuga tem mão praticamente única. Os trânsfugas deixam seus partidos para buscar abrigo nos partidos que estão aliados ao governo federal. Traem para poder usufruir de perto das benesses do Executivo, pois embora eleitos por siglas oposicionistas, querem mesmo o afeto, o aconchego, o carinho, o calor, das verbas públicas e das nomeações.

O Brasil não tem dado à reforma política a prioridade necessária. As raposas não querem mudar o caminho do vinhedo. Do curral das ovelhas. Nos discursos bramam aos quatro cantos que são a favor dessa reforma e juram por ela lutar. Na prática esfalfam-se nas vantagens de estar ligado ao poder, deixando para trás os companheiros de sigla que perderão força de defesa dos interesses programáticos, pelo abandono. Não sou ingênuo de pensar que a defesa programática é considerada. Falo do ideal. O real é uma calamidade de traições e distanciamento dos eleitores. Um fosso de descomprometimento com a causa pública, em nome da qual, blasfemam ao mudar.

Convido o eleitor a ficar atento ao noticiário político e decorar o nome do parlamentar que vai mudar de partido. Se por acaso tiver sido seu candidato, sugiro que o mesmo receba uma carta, e-mail, telegrama, telefonema, seu, evidenciando sua insatisfação que a traição ocorrida e com a promessa de jamais voltar a nele votar.

A mansidão do eleitor brasileiro face às ofensas diárias que recebe de quem vive de seu suor, trabalho (via impostos) é uma das causas dos abusos e da sem-vergonhice arreganhada que assola o país.




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